A ARTICULAÇÃO DA LUZ ATRAVÉS DA PALAVRA: ALGUMAS POSSIBILIDADES DE DIÁLOGO ENTRE O CONTO A IMITAÇÃO DA ROSA, DE CLARICE LISPECTOR E A SÉRIE FOTOVIDEOARTÍSTICA VESTÍGIOS, DE NEIDE JALLAGEAS

 

Neide Jallageas - USP

 

(...) sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia (...)

 

Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem.

 

Introdução

 

De maneira breve falarei sobre algumas relações dialógicas que venho estabelecendo entre o conto A Imitação da Rosa, do livro Laços de Família, de Clarice Lispector e a produção artística, expressa em VESTÍGIOS, uma série de fotografias e um videoarte que realizei entre agosto de 1998 e abril de 2000. Este trabalho é parte dos estudos que venho fazendo no Mestrado na Escola de Comunicação e Artes - ECA, da Universidade de São Paulo, USP, no Departamento de Cinema.

VESTÍGIOS, até julho de 2000, percorreu diversos espaços expositivos, como o Museu de Arte Contemporânea do Paraná, em Curitiba, o Palácio do Rio Negro, em Manaus, o Paço das Artes e o Museu da Imagem e do Som, em São Paulo e, à convite da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, integra o módulo Arte do Século Vinte no Brasil, da Mostra do Redescobrimento Brasil 500 Anos, em Portugal. Três de suas peças pertencem ao acervo do Estado do Amazonas e uma integra o acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo.

 

A personagem

 

Laura, figura central de A Imitação da Rosa, é uma personagem paradoxal, arquetípica. Uma mulher recém-saída de um hospital, provavelmente uma clínica psiquiátrica, que esforça-se por estar "bem", por demonstrar que está curada e adaptar-se ao que ela busca parametrizar como "normalidade". Nesse esforço a passagem do tempo é constantemente marcada pelas atividades domésticas: ir à feira, arrumar a casa, passar as camisas de Armando (o marido) e tomar pau-sa-da-men-te um indefectível copo de leite, da forma mais natural possível, buscando não esforçar-se, segundo prescrições médicas. Esse esforço, ou melhor, esse esforço por não parecer esforçar-se, vai demonstrando sua precariedade passo a passo, a cada movimento ou olhar que a personagem dirige para ela mesma e sua vida. A precariedade chega ao seu ápice no momento em que Laura depara-se com um jarro de rosas sobre a mesa da sala. Comprara as rosas por insistência do vendedor, declara. Ela mesma seria incapaz de uma extravagância dessas (LISPECTOR, 1979: 45). Alvoroçada com o potencial de beleza e erotismo das rosas (HELENA, 1997: 55), Laura logo pensa em ofertá-las à sua amiga Carlota, iniciando o movimento de tensão e instabilidade com a qual a produção artística VESTÍGIOS dialoga.

Ficar ou não com as rosas ultrapassa os limites do desejo de possuir o objeto flor, corporificado nas rosas. A qualidade que Laura lhes atribui: extrema beleza, é o ponto máximo de sua inquietude. A perturbação dessa visão sobre a qual a personagem vê-se refletida, com todas as suas ambigüidades existenciais, evidencia em Laura a sua fragilidade diante de valores com os quais não se alinha, mas para os quais ela não encontra substituição, ou possibilidade de revaloração. A crise diante do belo e do erotismo das rosas sobre a qual a personagem se desdobra, a reconduz aos velhos dilemas pelos quais caminha boa parte da humanidade, e, em especial, o dito sexo feminino, porque é sobre ele que a personagem engasga, pulsa, se enovela e enlouquece: entre o apropriar-se e o abster-se, o assumir e o omitir, o descobrir e o encobrir, entre o desejo e o medo.

Laura, que jamais tivera coisa alguma, por que ficaria com as rosas? E por que as daria? (LISPECTOR, 1979: 49-50).

Depois de um dos mais belos solilóquios que a literatura brasileira já produziu, Laura finalmente pedirá à empregada para que leve as rosas de presente à sua amiga Carlota. Desfaz-se assim do corpo que a atormenta, que a deixa acuada, para descobrir ato-contínuo que a alma das rosas está impregnada dela e nela.

Sem as rosas, a personagem fulminada por sua própria condição de "sem saída", despossuída, é incapaz de conviver com a contínua e torturante presença que a marcada ausência das rosas deixou. Laura não consegue mais suspender ou controlar o tempo, não mais se esforçará por aparentar um não esforço. Entrega-se, exaurida, embarcando “num trem que já partira" (LISPECTOR, 1979: 58), metáfora que Clarice usa como a inevitável representação do ingresso de Laura na "loucura".

           

O diálogo entre personagem literária e personagem visual

 

Muito embora a riqueza de todo o conto desperte o ato criador, no trabalho visual que venho desenvolvendo, é unicamente o universo tensional do qual emerge a crise de Laura que vai estabelecer o jogo espacial/temporal no campo estético, onde entra em cena a personagem.

Procurando afastar-se ao máximo da ilustração, a série VESTÍGIOS vem buscando na contenção da luz os trânsitos entre o claro e o escuro, dando visualidade ao que a artista lê como pulsação da personagem.

Trabalhando com as possiblidades de representação de Laura, optei por construir o meu próprio equipamento fotográfico e processar todos os filmes e papéis preto e branco em meu laboratório. Um processo de pesquisa constante que fez com que eu adentrasse e dialogasse com os campos notadamente científicos da óptica, da química e da matemática, princípios sem os quais a fotografia é apenas mais um jogo lúdico de um aparelho programado que ilude as potencialidades da criação humana. (FLUSSER. Filosofia da Caixa Preta).

VESTÍGIOS é uma série que continua em processo. Porém, como objeto investigativo de Mestrado, delimitei três conjuntos de trabalhos que dialogam diretamente com a personagem de Clarice Lispector, sendo que os outros dois da mesma série – que estão atualmente em produção – deslocam-se do universo clariceano para fazer emergir figuras declaradamente instáveis, com as quais continuo a investigar o absinto por onde trafega a alma humana (refiro-me a Sofias que é um ensaio sobre a (in)sania, sem dúvida inspirada em Laura, mas liberta da literatura propriamente dita, as (des)figurações nascem de minhas reflexões, observações e diversas leituras que incluem Hyeronimus Bosch, Francis Bacon (pintor), Michel Foucault e Marguerite Duras; e a Penélopes, que é um ensaio composto de trípticos, sobre a (in)fidelidade, que vagueia pelo que os gregos omitiram – ou não quiseram tocar – sobre a esposa de Ulisses, mas traz grandes afinidades com personagens de Duras, notadamente Lol V. Stein e Anne Marie Streter e ainda com a primeira heroína de Lispector, Joana, de Perto do Coração Selvagem).

Para o que trago hoje interessa diretamente abordar os três primeiros trabalhos de VESTÍGIOS que são:

1. Primeiro movimento: dezoito imagens fotográficas, de diversos tamanhos.

2. Realidades meramente superficiais: instalação fotográfica com sete imagens de 96 x 144 cm..

3. Intervalo: um videoarte de seis minutos.

           

Primeiro movimento busca fazer uma sondagem inicial das possibilidades estético expressivas da personagem. Explora as limitações técnicas e o potencial poético. Foram testados diversos tamanhos de imagens e papéis de variadas texturas, brilho e contraste. Da mesma forma o trabalho laboratorial foi intenso, abrindo com o estudo de zona tonal um variado leque de possibilidades de expressão através da luz. A opção pelo negro para que dele emergisse a figura cambiante e vertiginosa de Laura foi fundamental para a definição do trabalho que sucedeu a este. Para essas fotografias iniciais construí duas câmeras, chamadas de câmeras de orifício pela característica de não utilizar lentes. A luz entra por um pequeno orifício e grava a película fílmica, colocada na parede oposta. Uma das câmeras recebeu o nome de Laurinha, uma referência direta à personagem Laura. E a outra, Carlotinha, como olhar de Carlota, amiga de Laura.        

Realidades meramente superficiais é uma instalação fotográfica que surge da necessidade expressiva de demonstrar as possibilidades de tensão e desfiguração da personagem diante de vários pontos de vista (BAKHTIN, Estética da Criação Verbal). Para isso foram construídas sete câmeras de orifício que receberam nomes diferentes. A necessidade da individuação, da "personalização do olhar" aprofunda-se através dessas também personagens, corporificadas em pequenas câmeras fotográficas. O processo de montagem das câmeras é fundamental para a compreensão da busca de alternativas, ou de possibilidades de se olhar ou se defrontar com o dilema angustiante de Laura, no momento em que ela mesma vivencia este embate, sem que dele pareça ter consciência: ou resgata a si mesma ou retorna à insanidade.

Cada uma das câmeras é feita a partir de uma embalagem que é retirada de sua inutilidade social. Ou seja, as embalagens, na sociedade de consumo, obedecem a determinados padrões, são feitas em linha de produção, prontas para serem descartadas. São formas, via de regra, que estão unicamente a serviço do conteúdo, praticamente inúteis após o uso para o qual inicialmente foram destinadas. Qualidades ou defeitos, estes foram os valores que moveram todo o movimento da Pop Art.

Em relação às câmeras de orifício, o movimento e a atitude são diversos. Eu diria que é ideologicamente e inutilmente oposto. Mas é oposto. Nesse processo de criar "possibilidades de visões diferenciadas", algumas poucas embalagens são resgatadas do invariável descarte; depois são pintadas de preto e personalizadas com adereços ou pinturas que as distingue; tanto uma das outras, como apaga qualquer rastro que poderia ter ficado de sua antiga aparência de embalagem descartável, indistinta. O “nome de batismo” e a data em que passaram a ser "humanizadas" são inscritos na base de cada uma.

Em Realidades meramente superficiais, essas câmeras foram utilizadas para demonstrar a extraposição do olhar de diferentes sujeitos dirigido a um objeto (BAKHTIN). Meu objetivo foi deslocar espacialmente esse movimento cambiante de Laura entre um olhar e outro. Como se fossem sete pares de olhos diferentes a olhar a personagem em um momento que condensa todo o seu drama: sete câmeras diferentes, com possibilidades técnicas totalmente distintas, colocadas em semicírculo e "olhando" ao mesmo tempo uma cena que foi captada durante doze minutos, deixaram impresso nos diferentes filmes que cada uma trazia dentro de si, sete "visões" diferentes de Laura, antes de sua queda para o abismo.

Montei a cena de tal forma que cada uma das sete câmeras foi posicionada em um determinado espaço, indicador de um ponto de vista diferenciado. Enquanto ali posicionada, somente aquela câmera teria aquele olhar, que por sua vez, distinguia-se das outras seis, seja pela própria constituição "física" do equipamento como pelo seu posicionamento espacial. Obviamente as sete visões obtidas simultaneamente reproduziram essa diferenciação, ou seja: a mesma personagem vista ao mesmo tempo por sete pares de "olhos" diferentes demonstra que existem no mínimo, sete possibilidades diferentes de representação.

O vídeo Intervalo, por sua vez buscou trazer à tona as questões onde a condensação temporal instala-se (DELEUZE, Logique de la sensation). Dessa vez é o tempo e não o espaço que determina as possibilidades que teria Laura para libertar-se, ou não, de seu impasse existencial.

Diferente da instalação fotográfica, o vídeo caminha para a mesma solução encontrada por Lispector: a tensão da personagem se estende ao máximo, ao limite do suportável, até o ponto em que ela entrega, sucumbe, não à liberdade, mas ao indistinto que a faz única em seu universo particular, diluída em uma sociedade inflexível em seus padrões de "normalidade". Laura parte ou dilui-se, por não encontrar saída, em uma viagem da qual possivelmente não mais retorne, cúmplice de tantas outras viagens, talvez não em um trem, como poética e metaforicamente Clarice deixa escrito, mas no escuro breu das águas profundas, por onde navega a secular e incrivelmente humana Nau dos Insensatos (FOUCAULT, História da Loucura).

 

Post scriptum: Para o intrigante preto, negro, escuro, que perpassa toda a produção fotovideoartística – que causa estranhamento, que força o “olhar mais perto” e com mais atenção, que chega a perturbar determinado público – a artista remete a uma fala de Mephistófeles, no Fausto de Johan Wolfgang Von Goethe: mas não seria a Noite mãe da Luz, sem a qual essa não brilharia?

 

 

Referências Bibliográficas:

 

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Trad. M. Ermantina G. Gomes. São Paulo:   Martins Fontes, 1992.

DELEUZE, Gilles. Logique de la sensation. Paris: Différence, 1984.

FLUSSER, Villém. Filosofia da Caixa Preta. São Paulo: Hucitec, 1985.

FOUCAULT, Michel. História da Loucura. São Paulo: Perspectiva, 1991.

GOETHE, Johann Wolfgang von. Fausto. Trad. Jenny Klabin Segall. São Paulo: Instituto Progresso, 1949.

HELENA, Lucia. Nem Musa, Nem Medusa. Rio de Janeiro: EDUFF, 1997.

LISPECTOR, Clarice. “A Imitação da Rosa” In: Laços de Família. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1979 

____. Perto do Coração Selvagem. São Paulo: Círculo do Livro, 1980.